Parece estranho que eu continue me interrogando e discutindo comigo mesma sobre as utopias. Já deveria ter aprendido que ela é um doce conforto para os sonhos e os desejos que nascem no coração dos seres. Devo confessar, infelizmente, que o melhor a ser feito é acreditar na desconfiança. Aquilo que me inquieta me revela mais do que o que me conforta. Nas linhas vazias perco as palavras que descobri com as pontas dos dedos, o corpo em chamas, sabendo de águas sem desfrutá-las.
Sei de lama e ferrugem febril que habita as transparentes florações. Sei dos cogumelos úmidos na boca, grãos na folha a boiar poemas. A palavra me engana: confeito doce e colorido, ela me atrai, mas dura e pétrea e dolorosa de degustar na língua, revira-se na garganta, pára enroscada no coração.
Devia saber de ovários, vestidos cor-de-rosa, mucosas. Certo, todo desejo nasce da falta, todo fundo de jardim é secreto, todo museu quer um lugar para ter memória. Sou febril na esperança, leve no oco, dura no eco. Meu corpo tem plumas, meu idioma força.
Mas se ao menos vivendo do que se morre, a custo me equilibrasse, me desviasse da emboscada e não caísse no limo de pouca tinta, onde a poesia é seca e magro o lábio na areia. Lavoura de muitas levas, semente desconhecida, é bela como uma praia… Deserta. Com ventos. E calmaria.
Aquilo que me inquieta é o que mais me conforta.
(Rita Schultz)
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